BADIU NA GALIZA:
MAR DI HOMI - TERA DI MUDJERES
Luzia Oca González* Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
1. IMIGRANTES EM TERRA DE EMIGRANTES
A Galiza é uma das três nações históricas que integram o Estado Espanhol, situada no
extremo Noroeste da Península Ibérica, a Norte de Portugal. Se bem que a emigração é uma
das características determinantes do país galego nos últimos dois séculos, nos finais do sec.
XX, a Galiza passa a ter um duplo papel no que toca aos movimentos migratórios: o seu
papel fundamental de proporcionar mão-de-obra emigrante a outros lugares do Estado
Espanhol e outros países, localizados por todo o globo, começa a coexistir com a chegada e
estabelecimento de imigrantes, facto que se tem convertido num fenómeno habitual e que
coexiste com o anterior. Portanto, o povo galego, emigrante por definição, começa a
conviver nos últimos anos com outros povos na condição de autóctone e já não só na de
emigrante.
Neste contexto, desde 1977 o caso da comunidade cabo-verdiana residente na
comarca conhecida por Marinha Luguesa foge ao movimento mais comum de afixação de
imigrantes na Galiza, cuja chegada substancial só se inicia na segunda metade da década de
90. Tal facto faz desta comunidade uma das mais antigas, com cerca de 29 anos de história.
A migração dos cabo-verdianos diferencia-se de outros grupos não só nas barreiras
temporais, mas também na inexistência de laços anteriores entre os países de origem e
destino, ao contrário do caso da imigração latino-americana, a mais numerosa na Galiza
actual, a qual contêm uma componente importantíssima de retorno dos descendentes de
galeg@s que um dia tinham emigraram, nomeadamente para a Argentina, Uruguai, Cuba e
Venezuela. Aliás, se falarmos de imigração na Galiza, a comunidade cabo-verdiana não é
em absoluto das mais importantes quantitativamente. É sim uma das mais diferenciadas, se
tivermos em conta aspectos como a apariência física ou a procedência geográfica.
Neste contexto de excepção, qual a razão da fixação e permanência destas pessoas
inexistente?. Tentaremos dar resposta a esta questão através deste trabalho1, no qual se tentará reconstruir o percurso destes migrantes, além de dar conta da sua vida por terras
galegas desde uma perspectiva de género. Apesar do poder político e mediático ter
convertido esta comunidade num exemplo idílico das relações entre autóctones e migrantes,
as coisas não têm sido fáceis em aspectos tão importantes como o trabalho, o exercício da
cidadania ou a vivência da identidade cultural na relação com outros grupos sociais,
aspectos que consideramos básicos se falamos da integração de grupos imigrantes nas
sociedades actuais.
Para isto serão empregues excertos de diversas entrevistas individuais e grupais2 (ver tabelas anexas), que se referem nomeadamente ao seu percurso histórico. Estas
entrevistas foram realizadas durante os anos de trabalho de campo, aquando da
coordenação de dois projectos de intervenção, e, posteriormente, como simples
investigadora. A observação participante durante mais de 6 anos tem sido um método de
trabalho privilegiado para conhecer a realidade desta comunidade, da qual já me sinto parte.
Os dados quantitativos que se apresentam foram extraidos de diversas fontes, além
do recenseamento completo relativo aos finais de 20023.
2. A CHEGADA DE CABO-VERDIANOS AO ESTADO ESPANHOL
Durante os anos 70, Portugal foi para @s cabo-verdian@s, além de destino migratório, a
principal porta de entrada no caminho para outros destinos europeus mais atractivos.
Conjuntamente com as motivações económicas estava uma outra, muito poderosa:
conseguir livrar-se do serviço militar obrigatório, que supunha ir lutar ao lado do exército
português contra os irmãos de outros países africanos colonizados por Portugal. Para
consegui-lo existiam diversas estratégias, que íam desde a compra da licença até à
deserção.
Desde os inícios da década de 70 muitos destes migrantes em movimento tentaram
passar para França ou Holanda de forma ilegal, o que supunha atravessar diversas
fronteiras europeias, mais difíceis de franquear quanto mais ao Norte se situavam. Naquela
altura os Pirinéus separavam a Europa rica e próspera da Europa pobre, no fim dos regimes
ditatoriais de Franco e Salazar, aparecendo os países ibéricos como destinos pouco
Estreito de Gibraltar e outras fronteiras exteriores da UE. Mas os perigos, especialmente o
de morte, e as consequências de ser apanhado em 1974, não são comparáveis aos que
actualmente se expõem os migrantes que tentam entrar na fortaleza europeia, que são
encarados como se de delinquentes se tratasse.
A primeira fronteira a cruzar neste percurso era a de Portugal com Espanha,
nomeadamente através dos rios Guadiana, Tejo ou Minho. A entrada em Espanha era ilegal,
ainda que naquela altura a perseguição da imigração ilegal não constituisse uma prioridade
para as autoridades.
“... tenías que saltar el río, ahi en Portugal. Entras a España. España estaba prohibido, tuve la suerte que no te encontrabas con algún policía. Na España nada. Ahi no tuve problema”. E1
Os cabo-verdianos não viajavam sozinhos neste percurso. Naquela altura milhares
de portugueses (qualificados como brancos pelo informante) tentavam a mesma viagem, a
qual os convertia em companheiros:
“Non, o Tajo ten sitios que se cruza ben, é estreito....cruzas mesmo ...quien me enseño todo eso fueron los blancos, quien sabia todo deso eran blancos. Cruzaban mas os blancos que nosotros”.E2
Uma vez em território espanhol, aguardava uma fronteira menos permeável, com
mais perigo de ser apanhado pelas forças policiais. Ao longo da fronteira com França,
através do País Basco, as redes de contrabando, que sempre tinham existido, eram uma
peça-chave nas malhas da migração ilegal.
“Cando llegabamos a Hendaya, non era facil. Ahí sí que era peligroso... yo crucé una vez, e andei, desde a tarde anochecer, ás 7 de la tarde, hasta las 7 da mañana...Era polos montes, en invierno... Esto xa encargaban os españoles. Ahi en Hendaya, en Irún. Daban media vuelta contigo. Solo sei que cruzaban o rio, e despois todo era monte. E cuando, e cuando iba a amanecer, entrabas dentro de la estacion del tren. De Hendaya ...Llegabas, ya tenias alli billete, todo. Te daban tu billete, ellos marchaban. Tu entrabas en el tren. Llegabas a París, o a donde sea, y si tenias algun familiar comunicación contigo. Un familiar o alguien en la estación, y ya te recogían...Yo tuve mala suerte. En Hendaya ya me cogieron”. E1
Neste ponto confluiam outras correntes migratórias ibéricas, entre as quais a galega
com destino, essencialmente, à Suiça. Mas também as procedentes de países do Magreb
(Algéria, Marrocos), com destino a França e outros países.
“Entre nosotros había marroquinos, había, montones, yo cuando lleguei asustei. Nun barracón que había nun monte. Y pensei que éramos os 12 caboverdianos que fumos, pero cuando llegamos a aquel barracón estaba lleno...todo eran marroquinos. Mi madre! ...Mujeres y hombres”. E1
Neste contexto, um número indeterminado de cabo-verdianos que não conseguira
alcançar França, ficou em zonas do País Basco e Navarra, onde era necessária mão-de-obra
destes imigrantes começaram a trabalhar em empresas de construção e obras públicas;
outros foram chegando atraidos pela possibilidade dum emprego. Os trabalhadores
cabo-verdianos na Espanha dos anos 70 desenvolveram o seu labor nomeadamente em grandes
obras de construção civil, como barragens (Zedilho, em Badajoz), centrais térmicas
(Andorra-Teruel), auto-estradas (Pais Basco), ou fábricas como Alúmina-Alumínio no
litoral de Lugo. Tratava-se de trabalhos que supunham uma dinâmica de constantes
deslocações, de uma montagem a outra, percorrendo toda a Península Ibérica.
Um outro foco de atracção de trabalhadores cabo-verdianos na altura respondia à
procura de mão-de-obra para as explorações mineiras de León (nas zonas do Bierzo e
Laciana), onde se foram afixando diversas comunidades que ainda existem (Bembibre,
Villablino).
Em alguns destes casos, a passagem de cabo-verdianos não deixou qualquer rastro,
já que, ao funcionar exclusivamente como mão-de-obra de enclave durante o tempo que
demoravam as obras, não chegavam a afixar-se. Exemplo disto é o caso de Andorra-Teruel,
onde construiram uma das cubas da Central Térmica por volta do ano de 1975. Uma vez
construida, e acabado o trabalho deslocaram-se para outros pontos do país.
“Nosotros trabalhavamos, trabalhavamos numha consola ...tudu dia tinha que encofrar, e, metro e medio, ao alto. Hai que dar a volta à torre enteira. Todos os dias. Os ferralhistas, os que pom ferro ...vam por diante ... e os que estam metendo nervio, hai otro sacando nervio já ...quita tornilho, leva tornilho ...Todos os dias.Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias...Quando acabou torre se acabou trabalho”. E2
O único vestígio da sua passagem pelas terras de Teruel é a pequena comunidade
fixada desde aquela altura em Alcañiz, localidade próxima na qual ficaram algumas pessoas
a trabalhar na construção civil e numa fábrica de cerâmica. Boa parte daqueles ferralhistas
acabou por ir para a Galiza, a partir de 1977, inicialmente através das empresas para as
quais estavam a trabalhar e, posteriormente, através das redes familiares e da boca-a-boca.
Na altura neste tipo de lugares as condições de vida e trabalho eram semelhantes às
vividas na grande Lisboa, onde boa parte destes trabalhadores cabo-verdianos passou a
primeira parte do percurso que acabou por trazê-los ao país vizinho.
A presença cabo-verdiana na Marinha dá-se, desde o início, dentro duma corrente
migratória com base no trabalho masculino. Num primeiro momento, durante os anos 77 e
78, cabo-verdianos procedentes de outros pontos do Estado estiveram a trabalhar na
montagem da fábrica Alúmina-Alumínio, que atraiu numerosos homens durante estes dois
anos. Uma vez finalizada a construção deste complexo industrial, os cabo-verdianos não
foram aceites como trabalhadores não temporários, sofrendo uma clara discriminação
laboral no que diz respeito aos trabalhadores espanhóis.
“No admitian extranjeros...Todo, hice todo lo que tenia que hacer, e, estaba a punto de afiliarme, inda el jefe de aluminio, que éramos muy amigos, que ya me conocía de estar ahí todos los dias durante años, ... ya me conocía, e cuando le dije que quería entrar en Aluminio me dijo: siii, tú a ti ya te conozco. Vete, que no hay ningún problema. Pero cuando fue pa afiliar, llevó las manos a la cabeza y me dijo: boh, yo es que pensei que eras de, que eras de, de ceuta, o de melilla ... pensé que eras de alli, te lo juro, que no pensei que eras extranjero...Dije:- no, yo, soy portugués-. Y me explicó ...- es el gobierno... La ley que te prohibe entrar a los extranjeros entrar a trabajar a una fabrica asi... No sé, pero, hay mucho paro. Ahora hay mucha gente parada, y va a haber problemas hasta nas obras -. Y fue verdad, que despois non nos querian renovar la residencia. E1
Perante a falta de trabalho, a maioria deles, sem familiares consigo, re-emigrou para
outros lugares com ofertas de emprego similares, continuando em permanente movimento.
Da mesma forma que sucedera em Andorra-Teruel, a partida destes trabalhadores poderia
ter suposto o desaparecimento de qualquer vestígio da sua presença na zona, não fora o
facto de se terem convertido, quase por acaso, numa força de trabalho imprescindível num
outro sector: a pesca.
O início da actividade industrial na fábrica provocou na comarca da Marinha uma
importante movimentação de mão-de-obra autóctone procedente do sector primário (pesca,
agricultura e actividades florestais) para o secundário, provocando a necessidade de
pescadores no porto de Burela, na altura em expansão.
O primeiro engajamento de um pescador cabo-verdiano data de 1978. Esta
incorporação na frota burelesa foi lenta e com altos e baixos durante os primeiros anos. Em
pequena quantidade, no período que vai até 1984, foi-se integrando nas tripulações dos
barcos o pequeno grupo dos cabo-verdianos que ainda não tinham ido embora. Os homens
cabo-verdianos funcionaram naquela altura como mão-de-obra de substituição dos
trabalhadores autóctones, que puderam escolher melhores trabalhos na fábrica. Para muitos
deles constituia a sua primeira experiência laboral no mar, um méio no qual nunca tinham
“ Marinheiro na CV nunca fora... Eu a primera vez que fum ao mar aqui, nom aguantaba dereito ... Quando tinha, quando tinha que fazer algo, tinha que amarrar-me a um sitio, conforme, porque eu nom podia aguantar. E pesca, era primera vez, pa mim”.E2
Mas durante estes primeiros tempos na pesca nem sempre era fácil o embarque, devido
à dificuldade de obter a autorização para trabalhar legalmente, já que nem existia uma lei
de imigração. Devido a este facto, alguns homens têm estado pequenas temporadas à
espera de resolver a situação, tendo ido embora em muitos casos. No entanto, trabalhavam
junto com as mulheres na apanha de algas na ribeira, um trabalho submergido e pouco
rendível, e partilhavam quartos e mesmo camas para afrontar as despesas quotidianas.
“Sakaba olga na beiramar sinku mes. Kin podia, Kin ka staba mar, sinku mes ...Nu ta detaba tres, kuatu riba dun kama. Manera di desaraskar. E3
A partir dessa altura, o desenvolvimento da economia portuária de Burela e a
procura de marinheiros para a pesca de alto-mar determinou o nascimento, evolução e
composição duma comunidade estável, fenómeno que se iniciou após a chegada de
mulheres e crianças. As fases pelas quais esta comunidade passou reflectem perfeitamente
as diferentes fases do sector, como se verá adiante. A evolução do número de marinheiros
no activo é fundamental para tentar reconstruir a comunidade no tempo, já que na sua
condição de cabeças de família determinam a chegada de mulheres e crianças.
3.2. A década de 80: a fixação de famílias
No início dos anos 80, a possibilidade de trabalho para os homens levou à fixação
duma parte deles, iniciando-se assim processos de reagrupamento familiar, naquela altura
pouco complicados se comparados com os de hoje, que provocaram a passagem de um
grupo composto fundamentalmente por elementos masculinos, para uma comunidade de
composição maioritariamente de tipo familiar, o que até hoje tem constituído um factor de
permanência nesta área geográfica. O número de pescadores inscritos passou de 20 em
1981, para mais de 60 doze anos depois.
Quanto mais avançada a década, maior número de famílias se re-agruparam. O número
de pessoas e famílias de origem cabo-verdiana que passaram pela zona constitui até agora
uma incógnita. Porém, pode-se afirmar que na segunda metade dos anos 80 a comunidade
maioria da grande Lisboa, que procuravam melhorar a sua situação socio-económica e
habitacional. Na altura a maior parte dos migrantes cabo-verdianos e de outras ex-colónias
moravam em bairros de lata em condições infra-humanas, cenários de inúmeros conflitos.
“Na, polo menos di kes ki bibi li midjor porke kada kual ta bibi na si kasa, e, e mas sosegado. Problema di arranja komplikason, pero ku kes gentes ki mora na kes barrakas tudu djuntadu ku kumpanheru, es ta faseba muito problema” E3
3.3. A crise dos 90
A década de 90 iniciou-se dentro da tendência de crescimento lento e constante que se
iniciara em 1978. Mas, a partir de 1993, a campanha de abate de barcos como
consequência das políticas de reconversão e modernização da frota, deu lugar a períodos
de escassez de postos de trabalho nos barcos de alto-mar. Por ser o mar a única opção
laboral para os homens cabo-verdianos, este facto propiciou uma nova re-emigração,
nomeadamente para a cidade de Zaragoza. Isto levou a que se produzisse, pela segunda
vez, um saldo negativo na evolução quantitativa da comunidade, tal como sucedera no
momento de finalizar a construção da fábrica. Mas se em 1978 eram homens os que
re-emigravam, na segunda metade dos anos 90 estiveram envolvidas famílias inteiras.
Com os dados de que dispomos, pode-se calcular que, no mínimo umas 100 pessoas
abandonaram a zona em apenas 6 anos (93/99). Em finais de 1998 residiam na zona perto
de 40 famílias, que agrupavam cerca de 140 homens, mulheres e crianças.
3.4. A revitalização do novo século
Finalmente, no período 2000/2004 revitalizou-se esta corrente migratória,
coincidindo novamente com um momento de necessidade de mão-de-obra no porto de
Burela, dando-se a maior entrada de novos trabalhadores na história da comunidade, que
coincide com a chegada de um novo colectivo de imigrantes: os pescadores peruanos, cuja
chegada tem sido promovida pelos empresários do mar, e que hoje são quase tão numerosos
quanto os cabo-verdianos, já que a maioria têm realizado reagrupamento familiar.
A renovação da corrente migratória cabo-verdiana não recebe nenhum tipo de apoio
administrativo nem empresarial: as pessoas continuam a chegar só através da iniciativa dos
seus familiares e dos serviços privados de um advogado.
Na revitalização do fluxo não estão unicamente envolvidos homens, já que se está a
novos processos de reagrupamento familiar, agora com fortes restrições legais e elevados
custos económicos, que se somam aos custos psicológicos e emocionais derivados de todo
o processo migratório. Este novos chagados constituem uma população maioritariamente
jovem, nalguns casos de menor idade de que algúns dos descendentes que já nasceram na
emigração.
No fim de 2002 estavam inscritos no porto de Burela 79 pescadores cabo-verdianos.
Dois anos e meio depois são cerca de cem. Cem por cento dos homens adultos continua a
trabalhar no mar, evidenciando-se dificuldades para aceder a um qualquer posto de trabalho
noutro sector. A comunidade está formada por umas 250 pessoas, repartidas em famílias
nucleares, algumas das quais acolhem transitoriamente recém chegados, até que estes se
independentizem. Também há grupos de jovens pescadores chegados há pouco tempo que
partilham habitação.
Durante esta década reformaram-se os primeiros pescadores, tendo todos eles
voltado a Cabo Verde. Alguns deixam cá filhos e outros parentes que ajudaram a vir
durante estes últimos anos.
“Es sta tudu li, e pa es trabadja pa sis futuro, pa ses futuro. Pa ses mudjer ku ses fidju. A mi por enkuanto inda N sta kin ka trabadju ki ka ta atcha nen un teston, pa mi ku nha mudjer e ta da. Ago pa es aguanta ses fidju, a mi no” E3
Este facto reproduz de certo modo o processo migratório dos pais, ainda que haja
grandes diferenças entre um emigrante badiu dos anos 70, nascido nas épocas de seca e
fome, eventualmente com experiências como a emigração forçada a São Tomé ou o
trabalho nos morgados, e os jovens que hoje chegam, nascidos a partir da Independência de
Cabo Verde e criados com um pai na emigração que envia remessas, que garantem o
bem-estar na família que continua a viver em Cabo Verde. As condições de chegada e fixação
são também completamente diferentes.
Nos próximos anos irão reformar-se os pescadores maiores de 55 anos, com
suficiente contributo à Segurança Social, já que, pelas duras condições de trabalho no mar,
essa é a idade de reforma. Começa-se a ver mais perto o eterno retorno ou então a
possibilidade de ficar nestas terras, onde nasceram seus filhos e filhas, definitivamente. O
tempo dirá... Até agora, o retorno é a opção dos três únicos casos de reformados.
3.5. O sector da pesca
A pesca de alto-mar, único nicho laboral dos homens cabo-verdianos em idade de
trabalhar, é, segundo um estudo realizado pelo Ministério de Trabalho espanhol, um sector
no qual os períodos de descanso não ultrapassan as 4 ou 5 horas continuadas, sendo hoje o
ofício mais perigoso na UE (a possibilidade de um pescador sofrer um accidente mortal ao
longo da sua vida é de 3%, cifra que sobe aos 50% no caso de acidentes graves)4. Estes trabalhadores não têm um salário fixo, debido ao sistema tradicional de partilha, ainda em
activo.
Na última década tem-se produzido uma clara divissão étnica do trabalho a bordo
dos barcos: uns poucos homens autóctones ocupam os postos melhor pagados e menos
perigosos; no entanto, um grupo maior de imigrantes de diferentes nacionalidades são
simples marinheiros, realizando os trabalhos mais duros, perigosos e pior pagados. A
ausência de promoção destes é quase total.
Uma nova estratégia dos jovens chegados na última vaga consiste em tentar
embarcar na pesca costeira, na qual começa a fazer-se patente a necessidade de
mão-de-obra. Neste tipo de pesca, que abrange vários métodos e pesquerias diferentes, com os seus
horários e calendários particulares, variáveis ao longo do ano, a presença de imigrantes tem
aumentado sistematicamente. As condições por comparação com a pesca de alto-mar
variam unicamente na proximidade à terra e nos descansos semanais, ou mesmo diários,
dependendo estes do tipo de arte de pesca empregue. Mas os perigos continuam a existir,
ainda no passado 22 de Fevereiro (2005), enquanto escrevia estas páginas, um barco de
pesca costeira, o Siempre Casina, naufragou, morrendo 8 pessoas, 6 delas imigrantes, no
posto de pescadores: um deles era um jovem cabo-verdiano, chegado na nova vaga, que
deixou este mundo na companhia de dois galegos, dois senegaleses e três peruanos. Uma
tripulação que reflecte com exactidão a nova composição das tripulações dos barcos
galegos.
3.6. Cabo-verdianos na Espanha hoje: badius e sampaiuds
Apesar da chegada e fixação de pessoas cabo-verdianas em território espanhol se ter
com redes activas, que hoje acolhe a umas 6000 pessoas, segundo a estimativa do
Consulado de Cabo Verde em Madrid, disseminadas por diversos núcleos, um dos quais
Burela. Entre estes núcleos existem importantes laços de parentesco e amizade.
Um facto diferenciador entre as comunidades cabo-verdianas na Espanha radica na
orientação de género das correntes migratórias: enquanto que em Madrid se trata duma
corrente baseada inicialmente no trabalho doméstico das mulheres, as restantes (minas de
León, Galiza, Zaragoza...), baseiam-se, e assim o fizeram sempre, no trabalho masculino, o
qual implica diferentes estatutos para as mulheres em qualidade de imigrantes: as primeiras
são consideradas legalmente como trabalhadoras, e as segundas como dependentes dos seus
maridos, o que nega a possibilidade de um emprego legal e de uma documentação
independente, como se verá mais adiante.
Conjuntamente com esta bifurcação de género (M.Veiga:1997:80) na fixação de
comunidades, existe uma outra baseada na procedência em Cabo Verde, que tem a ver com
as duas sub-culturas cabo-verdianas: badiu fronte a sampaiud (habitantes de Santiago face
aos das outras ilhas): existe uma tendência face à formação de comunidades de origem
badiu (Galiza, Zaragoza), ou sampaiud (Madrid, León).
No nosso caso as pessoas de origem badia perfazem quase 100% da comunidade.
Os seus locais de origem estão situados preferentemente na costa Leste da Ilha de Santiago,
todos eles em zonas rurais: Porto Rincão, Portomosquito e outros lugares da Freguesia de
São João Batista (Gouveia) e Ribeira da Barca. Outras redes dentro da comunidade
procedem de diversas zonas do Norte da Ilha: Tarrafal, Ruberas de Lagoa e Principal.
Também podemos encontrar grupos mais pequenos e novos com origem em Cidade Velha
ou locais do interior.
Desde o início do séc. XXI o percurso seguido para se chegar à Galiza e outros
pontos do Estado Espanhol tem como o lugar de passagem obrigatória para uma entrada
legal em Espanha a cidade de Dakar, sede da Embaixada espanhola para o Senegal, Cabo
Verde, Gâmbia, Guiné-Bissau e outros países da região. Nesta cidade as pessoas passam
um tempo indeterminado à espera do visto de entrada no território Schengen, fazendo bicha
dia após dia na Embaixada, na qual são frequentes os maus tratos policiais.
A rota através de Portugal nunca deixou de existir, estando ainda activa no início da
pessoas, nomeadamente mulheres e crianças, que entram como turistas, e depois ficam na
clandestinidade, para posteriormente tentar legalizar a sua situação uma vez na Galiza,
através do marido ou pai, chegado através da rota legal.
4. MULHERES NA TERRA 4.1. Percursos de chegada
As mulheres cabo-verdianas costumam chegar dentro de processos de
reagrupamento familiar, como cônjuges, sendo absolutamente excepcional a sua chegada
sozinhas. Diferentemente de outras ilhas, no caso das gentes badias é norma os homens
emigrarem primeiro.
“É que mesmo, mesmo en Cabo verde hai sitios, hai sitios que hai máis libertad entre hombres e mujeres e hay sitios que no. Síi. Porque por ejemplo, en San Vicente o en otras islas, hay muchas mujeres que emigran ellas...En Santiago no ...Y emigran para Italia, vienen para Portugal. Y vienen, después mandan buscar al marido... E para América, sí. Porque si tienen familiar, les mandan a buscar, después vienen ellas, y ya vendrán ellos, síi. Pero en cambio en Santiago, ya...se sale una mujer, igual te denuncian. Síi”. EG1
Como já se referiu, a sua chegada iniciou-se nomeadamente depois de os homens
terem passado a trabalhar no mar, ainda que algumas tenham chegado antes, na altura da
construção da fábrica. Até finais dos anos 90 Portugal foi a porta de entrada também para
as mulheres e crianças, nomeadamente de forma ilegal, passando a fronteira minhota das
mais diversas formas. Uma vez na Galiza não era difícil legalizar a sua situação através do
Consulado de Portugal em Vigo. Para muitas destas mulheres a chegada à grande Lisboa
supôs a ruptura de um sonho, o desvanecimento da ilusão dessa Europa imaginada, que
nada tinha a ver com a realidade das duras condições de vida, que em alguns casos eram
piores das que deixavam em Cabo Verde, onde era frequente terem deixado crianças a
cargo das avós ou outras mulheres próximas.
“Yo en Cabo Verde tenía buena vida. Yo era profesora, ganaba mis cartos ...Cuando yo llegué a Lisboa, en el año 76, que todos los caboverdianos vivían en chabolas, casas de madera, cubiertas con latón, que en Cabo Verde non había de eso. Yo nunca tiña conocido caracoles, nin nunca tiña visto hielo. Yo llegué en el mes de Febrero, llegué allí a Lisboa, dentro de aquela chabola, con caracoles ahí no techo ...ahí hacías la comida, ahí estaba la cama, ahí estaba la, adonde se hacía caca. Ahí, de todo ahí mezclado. Yo dejaba un niño con 8 meses, estaba dándole pecho... Mira, tenía fiebre, dolor de pecho...Chorei, chorei, chorei, sen unha peseta!. Sin nada, sin nada, sin nada, sin nada”. EG1
Na actualidade uma situação comum para qualquer mulher que venha directamente
de Cabo Verde é a seguinte: o marido emigra, através de Dakar, onde esperará um tempo
determinado pela sorte ou azar dependentes da velocidade com que obtém o ansiado visto.
Uma vez conseguido, após uma longa viagem com diversas escalas, chegará a Burela. Lá
esperará que a sorte faça com que apareça uma campanha na qual consiga a titulação
necessária para embarcar, e, uma vez esta conseguida, começará a trabalhar como pescador.
Passado o tempo suficiente para colmatar os gastos do seu próprio processo migratório,
dependendo da sorte de uma boa pescaria, iniciará um novo processo, desta feita de
reagrupamento familiar, através do qual virá a sua companheira, quem sabe se
acompanhada por alguma das suas crianças. Ou talvez nem isso, já que em muitos casos
ficarão ao cargo das suas avós, madrinhas, tias, vizinhas, até que a sorte decida o seu visto.
Outras vezes as crianças emigram por etapas, até finalizar o reagrupamento familiar, caso
alguma vez este chegue a completar-se. Este processo, além dos elevados custos
económicos tem fortes custos emocionais e psicológicos, relacionados com as sucessivas
separações (do companheiro, e d@s filh@s e da própria comunidade) às quais estas
mulheres são submetidas até se finalizar o reagrupamento da família.
4.2. Organização da estrutura doméstica
Desde a sua chegada, as mulheres pressupõem um factor de permanência na zona.
As primeiras crianças descendentes de cabo-verdian@s na Marinha nasceram já em 1978.
A sua chegada e fixação possibilitou o aparecimento de redes estáveis de solidariedade e
entre-ajuda entre os grupos domésticos, muito importantes no momento da chegada a este
novo meio. Os primeiros tempos foram especialmente duros, já que por serem poucas
pessoas ainda não era possível a constituição de redes de apoio mútuo que, entretanto, se
foram ampliando com a chegada de mais pessoas e a consequente sedimentação da
comunidade.
A emigração pressupõe uma mudança na organização familiar. A composição dos
grupos domésticos em Burela organiza-se de acordo com o modelo de família nuclear, em
contraposição ao modelo badio de agregado familiar extenso. Estas famílias estão definidas
pela falta do pai, convertendo-se o referente masculino numa personagem quase sempre
ausente, mas que tem uma importância central nos períodos nos quais está de folga. A vida
liberdade de movimento, sempre atentas aos desejos e necessidades dos seus maridos, aos
que não querem incomodar com problemas nos pequenos tempos de reencontro após tantos
dias de duro trabalho no mar.
A ausência masculina coloca a mãe num duplo papel na socialização d@s
descendentes, que a maior parte do tempo é enfrentado solitariamente. Existe um grande
paralelismo entre o exercício da maternidade na terra de origem como mulheres de
emigrantes, e no destino, como mulheres de pescadores. Aliás, existe uma continuidade no
apoio que estas mulheres têm para cuidar as suas crianças e gerir o seu lar: a ajuda recebida
na família extensa passa a ser garantida na emigração pela rede de solidariedade e apoio
tecida entre elas.
4.3. O trabalho das badias
O trabalho das mulheres fora de casa é um fenómeno que surgiu logo nos primeiros
tempos de emigração, ainda que nem todas tenham acedido ao mercado laboral. No caso
daquelas que o fizeram, a inserção tem-se dado sempre nos postos mais baixos da escala
laboral, em sectores conhecidos pelos seus altos graus de precariedade, temporalidade e
exploração, frequentemente exercidos de forma submergida ou clandestina: serviço
doméstico, limpezas, cuidado de pessoas e hotelaria sazonal. Para além disso desenvolvem
outras actividades económicas clandestinas, como a apanha de algas na ribeira do mar ou a
elaboração de tranças por encomenda.
Para a maioria das adultas, para além das tarefas domésticas e os cuidados prestados
às suas famílias, a agricultura de subsistência surge como uma actividade essencial ao bem
estar, na medida em que possibilita uma grande poupança nas economias familiares. O
trabalho nas hortas é realizado em terras arrendadas ou cedidas, nas quais se tem
experimentado com sucesso a introdução de espécies não habituais na Galiza, como a cana
de açúcar e alguns tipos de feijões. Para além de beneficiar economicamente o grupo
familiar, serve como base para a reprodução da cultura gastronómica badia, baseada no
milho, espécie muito habitual na agricultura galega, mas aqui essencialmente destinada ao
consumo animal. A prática da agricultura reproduz o sistema de djuntamon (trabalho
fundamentais na elaboração de todos os produtos derivados do milho (xerém, camoca,
milho cuchido, cuscus, etc), dada a inexistência destes na cultura galega.
4.4. Estatuto legal
A maioria destas mulheres foram e são “obrigadas” pelo sistema legal a trabalhar
dentro da economia ”subterrânea”, já que as suas licenças de residência dependem da
licença dos seus maridos, quando vêm através de reagrupamento familiar. Essas licenças
não as autorizam a trabalhar em condições de legalidade. Em 1998 apenas uma badia tinha
licença de trabalho, estando o resto das que tinham um “emprego” na economia informal. A
visão machista que têm as autoridades a respeito das imigrantes, como mero complemento
dos seus homens, tem causado inúmeros problemas, nomeadamente a impossibilidade de se
inscreverem nos centros de emprego no serviço público e em acesso a determinados
recursos sociais.
Mas as consequências deste facto ultrapassam o mundo laboral, e atingem
profundamente a sua vida pessoal: no caso de uma separação do casal, a mulher vê-se
numa situação de absoluta dependência do seu companheiro à hora de renovar a sua
documentação, facto que pode forçá-la a suportar repetidamente situações que não deseja,
por estar desprotegida legal e socialmente. Esta questão agravar-se-ia no caso de ser a
mulher vítima de qualquer forma de violência de género.
“A min o señor malo ese (um policia) me mandou casar para, tener permiso de residencia. Y le pregunté: -y entonces una persona si no quiere casar no puede tener permiso de residencia?-. Dice: -ay, señora, no-. -Y si quiero ser independiente, vivir yo sola, no puedo?-. –No-. Dixen eu, -bueno, pues se es obrigatorio, puedo casar hoy y divorciar mañana?-. -Ah, usted hace o que quiera, pero tiene que tener un señor a su lado- ...Claro, por iso hay muchas colombianas y esas mulleres, dominicanas, que están casando con los gallegos o con algunos españoles más ...por no tener documentación. Y ahora están ahí, sufrindo. EG1
4.5. Identidade e modelo de convivência
As mulheres badias desempenham um papel fundamental não só na organização da
vida comunitária e na manutenção das relações com a terra de origem e as genealogias e
amizades dispersas pela Diáspora. Como também exercem um papel chave como
educadoras da segunda geração, cumprindo o papel de portadoras e transmissoras da
das práticas culturais badias. Cerca de cem por cento d@s descendentes tem o crioulo como
língua-mãe.
A diferença do que sucede por exemplo em Portugal, na área metropolitana de
Lisboa, na qual a maioria da população cabo-verdiana e de outras ex-colónias reside em
bairros marginais, carentes de todo tipo de infraestruturas e recursos, em Burela as famílias
badias estão dispersas pela localidade, ainda que nos últimos anos exista uma tendência de
concentração numa determinada zona. Alguns dos guetos de Lisboa reproduzem física e
socialmente um pequeno Cabo Verde. Em Burela, onde a situação económica e social não é
precária, o gueto não é tão físico como mental, e centra-se na endoculturação dos
descendentes e no estreito mundo relacional, determinado pelo modelo de convivência no
qual se inscrevem as relações com o grupo autóctone. A grande parte da comunidade
situa-se no modelo de situa-separação, no qual o grupo minoritário consitua-serva e reproduz elementos da
sua identidade cultural, sem ter mais relações com o grupo maioritário que as derivadas do
mundo laboral (Berry, 1984).
Portanto, as relações interpessoais e sociais destas pessoas inscrevem-se
nomeadamente no âmbito intra-comunitário, tecendo uma densa rede de relações
endogâmicas. Uma consequência negativa disto é a alta conflitividade existente no seu seio,
perante a existência de escapes através de relações num contexto de maior amplitude.
Indicadores eloquentes da falta de relações positivas, de amor ou amizade com pessoas de
outros grupos étnicos, são os escassos casais mistos, muito infrequentes durante estes 29
anos.
5. AFRO-LUSO-GALEG@S
A chamada segunda geração, bastante numerosa, é um elemento chave para explicar
o difícil processo de integração das pessoas cabo-verdianas na sociedade de acolhimento.
Se bem que não têm existido fortes problemas do tipo “violência racista” face à
comunidade, pode-se constatar uma série de situações discriminatórias que afectam este
grupo, focalizadas no seu estatuto legal, no percurso escolar, na inserção laboral dos mais
velhos, e nas relações de amor e amizade com os autóctones.
O grupo de descendentes estava composto em finais de 2002, por 91 pessoas.
Actualmente é algo mais numeroso, de acordo com a tendência geral de crescimento da
comunidade. Trata-se dum grupo sumamente heterogéneo: no que diz respecto à sua idade,
esta oscila entre os 0 e 33 anos. As pessoas maiores de 16 anos, idade legal para trabalhar,
perfazem cerca de metade, estando a outra metade em idade de escolarização obrigatória.
Essa heterogeneidade existe também se repararmos nos seus lugares e países de
nascimento, questão que está interligada com o percurso de seus progenitores, e que tem
levado à existência de três nacionalidades no colectivo da segunda geração: cabo-verdiana,
portuguesa e/ou espanhola, facto pelo que têm sido denominados “afrolusogaleg@s”.
(Fuente, 1996:193-204)
Por um lado, temos o grupo proveniente de Cabo Verde através de processos de
reagrupação familiar. Este grupo existiu sempre, se bem que nos últimos cinco anos, com a
renovação do fluxo, tem-se aumentado. Junto deste grupo está o dos que nasceram em
Portugal, cuja chegada foi especialmente relevante entre meados dos anos 80 e 90,
representando quase um terço do grupo de descendentes nascidos em países estrangeiros.
Praticamente a metade da 2ª geração corresponde ao que podemos denominar de emigração
infantil, que actualmente apresenta uma clara tendência de crescimento. Por esta razão, a
percentagem que está a aumentar de ano para ano é a das crianças que vêm desde Cabo
Verde, através da nova rota, enquanto que o de Portugal está estancado.
Por outro lado, temos o grupo que nasceu em alguma das localidade de A Marinha,
onde têm residido toda a sua vida (Burela, Foz, Cervo), ou então são naturais de algum
outro lugar do Estado Espanhol. Este grupo representa aproximadamente metade do total.
5.2. Estatuto legal e direitos
Uma das discriminações sofridas pelo grupo ao longo do tempo tem a ver com o
estatuto legal dos desdendentes nascidos em território espanhol, que foram discriminados
durante mais de 20 anos, ficando num “limbo” no que se refere à sua nacionalidade. Esta
situação, na qual mais da metade dos descendentes eram realmente apátridas, disfarçava-se
com a emissão por parte da Polícia Nacional de uma autorização de residência na qual
constava que a pessoa portadora tinha nacionalidade cabo-verdiana. Isto não correspondia à
nascido em outro país teria que solicitá-la no consulado ou embaixada correspondente. Esta
situação de apátria disfarçada, teve como consequência a negação do acesso aos direitos
derivados da nacionalidade espanhola: possibilidade de solicitar bolsas de estudo, de viajar
a Cabo Verde e poder regressar sem problemas, de expedição de documentos como o Livro
de Família ou o título de família numerosa. Muitos destes jovens pagaram durante anos as
taxas de uma autorização de trabalho para estrangeiros.
Ainda que a lei permita o acesso à nacionalidade espanhola, a falta de organização
da comunidade no que concerne à luta pelos direitos de cidadania, conjuntamente com o
racismo institucional, levaram à manutenção desta situação até a entrada do novo século.
5.3. A escola e a identidade
O mundo escolar pode servir-nos como indicador da realidade do grupo de
descendentes. A sua presença na escola deu-se desde o ano lectivo 80/81, tendo passado
pelos centros escolares da zona até ao ano 01/02 pelo menos 114 crianças e jovens. Até
2004 só dois finalizaram o ensino secundário, dando-se a primeira e única entrada na
Universidade no ano 2003/04. Com base nestes dados, o insucesso escolar torna-se claro.
As problemáticas vividas pelo grupo a nível escolar, além das capacidades pessoais, são
diversas, apresentando em geral um baixo rendimento e inúmeros casos de abandono no
fim da escolaridade obrigatória, sem obter sequer o aproveitamento no ensino primário.
Este grupo vive uma situação linguística de triglósia (crioulo-língua materna, galego
e castelhano), na qual as três línguas que se empregam e conhecem são diferentemente
valorizadas, ocupando o crioulo materno o último posto nessa valorização subjetiva. Esta
escisão cultural-espacial costuma dar lugar a conflitos identitários, nos quais o facto de
estarem racialmente marcados vem a acrescentar um outro elemento de diferenciação com
respeito às crianças e jovens autóctones.
Grande parte da segunda geração, independentemente dos seus lugares de
nascimento, apresenta dificuldades no processo de construção da sua identidade individual.
O processo de enculturação plasma-se no choque dos dois sistemas culturais, ao que se
segue alguma estratégia encaminhada a integrar a discontinuidade cultural na identidade
pessoal. Uma das possíveis estratégias, a de opção pela cultura autóctone, dominante,
riqueza pressuposta na cultura materna. Outra estratégia possível, associada no nosso caso a
um modelo de separação, basear-se-ia na coexistência de ambas identidades culturais, mas
sem interligações entre elas, estando delimitado o seu espaço de expressão, plasmando-se
numa espécie de dupla identidade. Por último, uma estratégia de coexistência, integradora
das duas culturas, abriria o caminho à construção de uma identidade positiva, fluída
(Juliano:196), algo difícil de conseguir sem apoio e especialmente perante uma realidade
que empurra a optar por uma das duas primeiras vias. Qualquer delas supõe uma perda, seja
da cultura familiar de origem, seja da cultura dominante da sociedade na qual se vive.
Portanto, existe a necessidade de construir canais que permitam a estas crianças
jogar a intercomunicar e interaccionar os dois mundos nos quais vivem, que possam
construir uma identidade sólida que englobe em positivo os dois sistemas culturais em
presença.
Até praticamente ao ano 2000 o grupo não foi objecto de interesse específico e
especializado por parte das entidades competentes, que até agora não têm dado uma
resposta coerente e decidida a este fenómeno, que não é particular dos cabo-verdianos, mas
sim de muitas outras crianças. A cultura caboverdiana nunca teve reflexo na escola até esse
momento. Ainda assim, não contam com nenhum referente intelectual do seu grupo étnico,
que seria de vital importância como modelo de referência. A inserção no mundo escolar
não significou até agora, em si mesma, a integração do grupo.
5.4. Inserção no mundo laboral
Uma boa parte da segunda geração já alcançou a idade de entrada no mundo do
trabalho. Até agora o mais comum é que encontrem praticamente as mesmas oportunidades
de emprego que seus pais e mães, sendo o mais habitual que eles se convertam em
pescadores de alto-mar, e elas em empregadas de hotelaria e/ou limpezas.
Os rapazes que até hoje conseguiram quebrar este determinismo são muito poucos:
os poucos que conseguem um trabalho em terra, nomeadamente no sector da construção,
estão relacionados com o mundo do futebol, o qual amplia as suas redes sociais e
Nos anos 90 começou a incorporação de jovens varões de 2ª geração no trabalho na
pesca. Esta entrada costuma dar-se aos 16 anos. Nos finais de 2002 supunham 20% da
mão-de-obra cabo-verdiana, com tendência a aumentar. A incorporação destes jovens
exactamente nas mesmas condições que seus pais está estreitamente ligada ao insucesso
escolar. Uma das situações mais dolorosas pelas que as badias de Burela passam é a de ver
como os seus filhos varões não costumam ter mais oportunidades laborais do que o trabalho
no mar, facto que aumenta a tensa espera entre maré e maré.
“Muy doloroso, y te da una pena... Ver un chavaliño con 16 con 17 anos ir ao mar. Te da pena. Pero qué vas a hacer también con ellos?. Aquí na terra non hay trabajo suficiente para ellos”.EG2
No caso das raparigas dá-se uma pequena mudança, já que procuram um futuro
diferente e menos difícil. Por conseguinte, um pequeno grupo levou algo mais longe os
seus estudos(Ciclos Médios de Formação Profissional), o que abriu a possibilidade para
melhores e mais diversificados postos de trabalho. Ainda assim, as oportunidades laborais
para a maioria destas jovens centram-se nomeadamente na hotelaria e em estabelecimentos
comerciais.
Neste sentido, a maioria das raparigas criadas na Galiza rompe de modo evidente
com o modelo de mulher que representam as suas mães, procurando espaços de maior
liberdade, e sendo dentro do grupo as que contam com relações mais abertas e regulares
com “branc@s”. No caso dos rapazes parece existir muito mais apego à divisão tradicional
de género, na qual ocupam uma posição de privilégio.
6. A PROJECÇÃO SOCIAL DA COMUNIDADE: QUE INTEGRAÇÃO?
Depois de mais de 25 anos de história, esta comunidade é conhecida na Galiza
através da imagem hiper-positiva dada pelos mass media, já que desde o discurso
interessado do poder político autonómico (Xunta da Galiza) e local (C.M. de Burela), tem
sido apresentada como o exemplo de integração de comunidades imigrantes por excelência
(até ao ponto de qualificá-la como “perfeita”). Por outro lado, ainda que em menor medida,
tem aparecido como protagonista de factos conflituosos ou delitos, designadamente brigas
ou venda de droga, o que dava a imagem contrária a essa suposta harmonia social,
O poder político é emissor de um discurso que parte de uma ideia simples: a
aparência de normalidade. O facto de afirmar a integração da comunidade tem a função de
justificar e sustentar o mito de normalidade que o poder sempre alimenta para se manter. A
sua ideia de integração tem sido fortemente assimilacionista e estática, já que pressupõe que
uma vez que @s imigrantes tenham uma certa cobertura para viver, e façam algumas das
coisas que o colectivo autóctone adopta, já se pode afirmar a existência da integração.
A comunidade cabo-verdiana da Galiza tem sido alvo de diferentes intervenções
públicas a partir de 1998, ilustrativas das diferentes concepções da integração e dos
modelos de gestão da convivência associados a cada uma destas, nos quais não nos
extenderemos cá.
A primeira intervenção junto com este grupo foi o Projecto Bogavante, promovido e
gerido pela Rede Galega de Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social (REGAL), através
da iniciativa comunitária INTEGRA. Desenvolveu-se entre Julho de 1998 e Fevereiro de
2000, e teve como objectivo melhorar a integração da comunidade. Pressupôs um processo
de investigação relativa às suas circunstâncias, já que eram completamente desconhecidas
pelas administrações, ao mesmo tempo que era realizada uma intervenção de tipo
participativo (IAP), com base em três linhas de actuação: formativa-laboral, dos direitos de
cidadania e intercultural.
A partir desse momento, o poder político, incómodo com a existência do
BogAvante, devido às suas bases conceptuais e formas de actuação participativa,
especialmente à ruptura com o modelo idílico da “integração perfeita”, apropriou-se desse
trabalho de intervenção, que continua aos dias de hoje, afastando a REGAL por questões
ideológicas. Este facto supôs a supressão das duas primeiras linhas de actuação, deixando
como única área de intervenção a intercultural, caindo no conceito de integração que resulta
do anterior conceito assimilacionista, unido a certas actuações já não interculturais mas do
multiculturalismo “vazio” que folcloriza e essencializa as diferenças.
Uma das coisas que mais nos surpreendeu quando começámos a trabalhar com a
comunidade cabo-verdiana foi a palavra com a qual é definida comummente em Burela:
moren@s. Um eufemismo, baseado na evidente questão racial, que não lhes atribui nada
em especial como colectivo nem como indivíduos: nenhum lugar de procedência, nenhuma
indiferenciado, utilizando uma estratégia de discurso metonímica. O BogAvante trabalhou
para mudar essa denominação pela de cabo-verdian@s, pessoas com uma procedência e
uma cultura diferenciadas.
A ausência de líderes comunitários e de uma organização própria defensora e
consciente dos seus direitos (existe uma associação, Tabanka, que foi revitalizada pelo
Bogavante após dez anos de inactividade e que hoje está controlada pela Câmara),
permitem este uso mediático interessado por parte do poder, que vira as costas às novas
necessidades aparecidas com a renovação constante deste fluxo migratório.
Em suma, ainda que os media apresentem recorrentemente uma visão idílica da
realidade das pessoas cabo-verdianas na Galiza, o estudo da sua curta história e dos âmbitos
laboral, dos direitos de cidadania e da vivência da identidade cultural na relação com outros
grupos, essenciais se falarmos de integração, demostram uma realidade que seria desejável
mudar, para passar do modelo actual de separação a uma verdadeira integração em todos os
âmbitos citados.
NOTAS DE RODAPÉ
1
Este artigo está baseado noutros elaborados com anterioridade, que aparecem na bibliografia
2
Na transcrição das entrevistas respeitam-se as três línguas ou mistura delas, empregues pelas pessoas informantes: crioulo, galego e espanhol.
3
Para dados do passado temos utilizado distintas fontes. Uma importante base documental procede dos diferentes centros de ensino nos quais em determinado momento têm estado ou ainda estão estudantes de origem cabo-verdiana (nos concelhos de Cervo, Foz e Burela). Obteve-se, aliás, informação na Confraria de Pescadores desta última localidade, através da qual se têm inserido laboralmente todos os varões adultos (maiores de 16 anos) até o ano de 1998, e a Capitania Marítima, o Instituto Social da Mariña (ISM) e a Associação de Armadores de Burela (ABSA), desde esse ano até ao presente. Outra fonte de informação importante constituíram-na os recenseamentos eleitorais realizados pela Embaixada de Cabo Verde em Portugal, e, posteriormente, pelo Consulado de Cabo Verde no Estado Espanhol. Para os dados correspondentes a pessoas que já não fazem parte da comunidade, têm-se contrastado os conseguidos nas fontes citadas com a memória das pessoas que levam maior tempo residindo entre nós.
4
TABELAS DE ENTREVISTAS
SEXO ANO DE NASCIMENTO
ANO CHEGADA À MARINHA
ORIGEM DATA ENTREVISTA
E1 H 1953 1977 FUNDURA OUTUBRO 2002 E2 H 1952 1977 TARRAFAL OUTUBRO 2002 E3 H 1940 1992 PORTOMOSQUITO SETEMBRO 2002
ENTREVISTA EM GRUPO
SEXO ANO DE NASCIMENTO
ANO CHEGADA À MARINHA
ORIGEM DATA ENTREVISTA
EG1 M 1953 1978 CIDADE VELHA
NOVEMBRO 2000 EG2 M 1954 1987 RINCON - PORTOMOSQUITO
EG3 M 1953 1978 SANTA ANA EG4 M 1955 1989 FONTILIMA EG5 M 1958 1989 ASSOMADA
BIBLIOGRAFIA
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