Máscaras Teatrais e a Cultura Māori: Experimentos Sincréticos no Pacífico Sul Pedro Ilgenfritz – UNITEC, Auckland, Nova Zelândia
Esta apresentação é uma breve reflexão sobre alguns experimentos sincréticos entre máscaras teatrais e a cultura Indígena da Aotearoa Nova Zelândia.
A Máscara e mascaramento aparece na cultura Indígena da Aotearoa Nova Zelândia de duas formas:
A primeira está na maneira como a genealogia é expressada através de tatuagem, e em alguns casos devido a posição social, a genealogia dos indivíduos é impressa no rosto.
Esta tatuagem facial e chamada de ‘Ta Moko’.
Ta Moko e uma “assinatura” visual adotada por um líder ou guerreiro, que representa ancestralidade, posição política, prestígio, feitos heróicos e narrativa da história tribal.
Portanto, uma máscara permanente, que junta o individuo com a “personagem” social, cultural, mítica e política.
Kia ora. (Bom Dia)
Tēna koutou katoa. (Saudações a todos/todas)
Pintura de Gottfried Lindauer, Tamati Waka Nene, 1890. (Auckland Art Gallery) Ta Moko esta cada vez mais presente na sociedade da Aotearoa Nova Zelândia.
A segunda é expressada através de imagens da genealogia tribal esculpidas em madeira no Marae:
Marae é a denominação da casa de reunião de cada grupo tribal. O espaço do Marae e decorado com totens, imagens de antepassados, e narrativas e personagens históricos que relembra e atualiza a presença destes fatos e individuos.
O Marae é um espaço comunal onde a cultura é celebrada, onde a lingua Māori é falada, onde questões intertribais são discutidas, e protocolos culturais são transmitidos e debatidos. É onde ocorrem reuniões de familia como aniversários, casamentos, funerais, visitantes são recebidos, e todo tipo de performances culturais acontecem.
O Marae está presente em varias culturas da Polinésia, e é considerado wāhi tapu, um ‘lugar sagrado’.
Exemplos da presença do mascaramento e máscaras nos diversos Marae em Aotearoa Nova Zelândia (detalhe da presença do Ta Moko nas esculturas):
Na minha busca pela primeira aparição de máscaras como objetos na Nova Zelândia eu achei a estoria de Rawiri Te Motutere - um guerreiro da primeira metade do século 19, chefe da tribo
Puketapu da região de Taranaki (cidade de New Plymouth) no costa oeste da ilha norte.
Rawiri Te Motutere usava o “Matahuna”
Mata – rosto Huna - esconder
Pele clara, e orgulhoso de seu Ta Moko, ele usava em ocasiões especiais ‘escudo facial’ para proteger do sol seu rosto tatuado, a mascara era feita de cabaça, e tinha esculpido a mesma tatuagem de seu rosto.
Problemas na representação da Cultura Māori e Ta Moko em Máscaras Teatrais em performance nos anos 1960 e 1970
Em 1960, o ballet Children of the Mist, coreografado por Leigh Brewer para o Wellington Ballet Company, os bailarinos usavam máscaras que representavam Ta Moko.
A ópera Earth and Sky de Jenny McLeod’s em 1968, era um drama dançado sobre a mito da criação Māori e teve crianças com máscaras Māori em estandartes.
Ator, director e professor de teatro Francis Batten estudou na École Jacques Lecoq’s em Paris, 1969. E em um “auto-cours” ele criou máscaras representando a mitologia e deuses Māori:
Tāwhirimātea Tawhiri, deus do vento;
Tāane, deus da floresta;
Tūmatauenga Tu, deus da guerra;
Tangaroa, deus do mar;
e Rongo, deus da agricultura.
A produção da Nova Zelândia para o Osaka World Expo em 1970 , foi um espetáculo chamado Green Are the Islands, e também incluiu mitologia Māori e máscaras.
A produção da Nova Zelândia para o Osaka World Expo em 1970 , foi um espetáculo chamado Green Are the Islands, e também incluiu mitologia Māori e máscaras.
A deturpação do Ta Moko e visível nos quatro casos:
Descaracterização, cópia infantilizada, deformada, simplificada, como se fosse uma decoração sem efeito, sem relação com o significado genealógico do Ta Moko, e uma representação grosseira da cultura Māori.
Na entrada dos anos 1990 e 2000 houve uma mudança de atitude na representação da cultura Māori, e que também se refletiu no processo de confecção e performance com máscaras teatrais.
John Davies
- Neozelandês que foi estudar Teatro Noh com Udaka Michishige sensei em Kyoto em 1984.
- Criou a New Zealand Noh Theatre Company nos anos 1990s.
- Pesquisa formas híbridas misturando Noh Theatre com elementos da tradição cultural Māori - Kapa Haka Noh.
- Performance – Te Tupua, The Goblin. Davis consultou com Matua Hare Williams um acadêmico Māori e figura respeitada na sociedade indígena de Aotearoa.
- Matua Williams ‘presenteou’ Davies com o design Ta Moko.
Regan Taylor e Te Rehia Theatre Company - Te Rehia é uma compania teatral Māori
com o foco de ”honrar, revitalisar e transmitir Te ao Māori (Visão de mundo Māori) através do teatro em Aotearoa e pro mundo.”
- Regan Taylor é descendente das tribos Ngāti Kahungunu e Te Arawa.
- Performance - SolOTHELO
- Adaptaçao de Otelo de Shakespeare para a lingua Māori.
- Máscaras de madeira esculpidas por um mestre escultor Māori - Tristan Marler.
- Meia máscara com Ta Moko – Māori Performance Mask - Te Mata Kokako o Rehia (como o rosto do pássaro
Kokako).
Regan Taylor e Te Rehia Theatre Company - Te Rehia é uma compania teatral Māori
com o foco de ”honrar, revitalisar e transmitir Te ao Māori (Visão de mundo Māori) através do teatro em Aotearoa e pro mundo.”
- Regan Taylor é descendente das tribos Ngāti Kahungunu e Te Arawa.
- Performance - SolOTHELO
- Adaptaçao de Otelo de Shakespeare para a lingua Māori.
- Máscaras de madeira esculpidas por um mestre escultor Māori - Tristan Marler.
- Meia máscara com Ta Moko – Māori Performance Mask - Te Mata Kokako o Rehia (como o rosto do pássaro
Kokako).
Mahuika Theatre Company e a produção de Leilani
• Direção de Pedro Ilgenfritz
• Busca pela anatomia Māori (estrutura óssea), e não a representação do Ta Moko.
• Tipo Māori urbano
• A atriz Aymee Karaitiana da tribo Ngāti Te Ata e Ngāti Kahungungu (estudou Commedia dell’ Arte com Claudia Contin e Ferrucio Merisi na Italia) transformou Arlecchino em um malandro Māori chamado Júnior.
• Processo de consulta/permissão com membros da tribo Ngāti Whatua Orakei de Auckland.
• Karaitiana chama seu estilo de teatro de ”Aotearoa dell’Arte”.
A máscaras dos espetáculos nos anos 1960 e 1970 podem ser vistos como a representação de um novo interesse (e renassença) da cultura Māori na Nova Zelândia. Mas também com apropriação cultural, e continuação da exploração imperialista e colonial.
Hoje a classe teatral neozelandesa tem mais consciência em relação a questões de identidade e appropriação cultural, e adota o processo de hibridização e adaptação de tradições teatrais importadas num contexto bi-cultural and multicultural do país. Resultando como nos casos apresentados, uma mistura entre a cultura Māori com theatre Noh, Shakespeare e Commedia dell’Arte.
O processo de confecção das máscaras de Davies, Taylor e Ilgenfritz envolveu consulta com líderes Māori e respeitou protocolos culturais no intuito de proteger e resguardar a integridade cultural e spiritual dos objetos e sua representação, e com o objetivo de se chegar a uma apresentação mais fiel da cultura Māori.
No diálogo entre a tradição das máscaras teatrais e a cultura Māori, a cultura Indígena é que se apropria do objeto e faz com que apareça uma forma nova e um estilo teatral mais identificado com a cultura nativa. Deste processo sincrético, o que vem à tona e um corpo teatral descolonizado e uma máscara específica resultante de um encontro entre duas culturas.
Kia ora mai ano tatou katoa. (muita energia para todos)