I – O PROCESSO DE CRIAÇÃO
O nosso processo de criação parte da reflexão e da discussão de textos
literários e filosóficos, referências de toda a espécie incluindo do cinema, casos
reais e experiências pessoais. É um percurso de reflexão pessoal do TEMA que
será sistematizado através de sessões de pensamento crítico coletivas e
colaborativas. Uma vez que o trabalho final vai integrar atividades de formação
e criação com crianças e jovens deveremos ter o cuidado (care thinking) de
adequar modos de fazer, linguagens e finalidades aos seus universos.
II – O TEMA
O tema escolhido é de grande amplitude. É um gigante, um mastodonte ou
talvez mais precisamente o grande Geiser filosófico. Perguntem ao Sartre
porque é que o homem está “condenado à liberdade” ou, por outro lado, a
Foucault como é que um preso, um condenado (um “corpo domesticado”)
“explode em desejo obstinado de liberdade”. Talvez tenhamos que indagar,
num certo momento e algures se navegar à deriva é a melhor forma de
navegar a imensidão oceânica do tema. Levaremos connosco, eventualmente,
alguns destroços a partir dos quais construir uma canoa, uma jangada, um
bote a que chamaremos a rir de Kit salva-vidas mas que assinalaremos no
nosso mapa como PONTO DE PARTIDA, numa tentativa de nos mostrarmos
sérios a rir.
III – O PONTO DE PARTIDA
O nosso ponto de partida não é um, são dois (“entre les deux mon coeur
balance” - Toneká): o primeiro, mais axiomático e que se prende com a
temos é resultado de um determinismo absoluto ou se há nele lugar para o
livre arbítrio. O segundo de ordem mais concreta e subjetiva e que se prende
com a nossa ação. A grande pergunta fundadora da ética e da moral que é
diretamente sobre a liberdade é esta: O QUE (DEVO) FAZER? Esta é mais uma
das intermináveis querelas filosóficas nas quais se confrontam aguerridos
guerreiros de exércitos inimigos. Vamos colocar frente a frente, o exército
epicurista e o exército estoico. Colocaremos também um exército de um
homem só que andará pelos campos de batalha a causar incómodo às hostes
estoicas e epicuristas porque andará teimosamente à procura do homem com
uma candeia e a chamar a atenção para algumas evidências desconcertantes.
DESTROÇOS INICIAIS
TEXTO A
Pensar a ideia de criar uma sebenta da liberdade. O que pode conter uma tal
sebenta? Imaginemos que foi este o pensamento que Deus pensou ao criar o
mundo. Pensou primeiro em criar uma sebenta, um espaço branco e vazio
circunscrito. Depois desenhou todas as coisas e criaturas como a criança
desenha as árvores em frente de uma montanha com neve debaixo do sol que
aquece os bigodes do gato ao mesmo tempo que faz escaldar as telhas do
telhado e talvez aqueça também o pelo de algum macaco pendurado num
galho de uma dessas árvores. Deus retorceu o nariz aos desenhos que tinha
feito de tal maneira que poderíamos pensar que se sentia meio-enfurecido,
meio-entediado com o que acabara de criar. Coisa que não terá acontecido
fúria e de tédio. E, contudo, Deus começou a encher a sebenta de rabiscos,
inúmeros rabiscos dispostos nas mais diversas direções e sentidos. As coisas e
as criaturas que antes assumiam o primeiro plano, foram cobertas de riscos e
rabiscos e resignaram-se a permanecer nos bastidores. Deus pegou nesses
rabiscos e ao imaginar o que poderia fazer com eles criou os acontecimentos.
Havia agora imensa animação dentro da sebenta que Deus criara. Todas as
coisas se movimentavam, adquiriam novas formas, misturavam-se. Às vezes as
criaturas desapareciam e depois de as procurar em todas as páginas da
sebenta, Deus era obrigado a aceitar que não sabia mesmo onde se tinham
metido. O facto é que, confuso ou não, a certa altura Deus fechou a sebenta
com toda a determinação. Este gesto divino teve tantas consequências e é tão
incompreensível… Uns pensam que Deus terá deixado o mundo à sua mercê
porque acreditam que Deus pintou as criaturas com uma tinta especial que se
chama livre-arbítrio e que só assim se compreende que tenha decidido fechar a
sebenta para sempre. Já outros levam o ato divino de fechar a sebenta com
determinação à letra. Ou seja, consideram que Deus só se poderia ter decido
por fechar a sebenta uma vez após ter desenhado tudo, todas as criaturas e
todas as coisas possíveis, todas as leis que as governam e todos os
acontecimentos possíveis.
Há sábios que dizem que foi nesse momento que Deus criou duas outras
sebentas: uma feita de ar e de céu e outra feita de fogo e metais pesados,
onde desenhar as criaturas que teimavam em desaparecer da primeira de
todas as sebentas. Não fora a perfeição divina, poder-se-ia auspiciar que Deus